Intenção de busca na era da IA: quando a resposta chega antes do clique

Durante anos, o raciocínio de SEO foi direto: descobrir o que as pessoas procuram, escrever a melhor resposta e disputar o clique. A intenção de busca continua sendo o ponto de partida. O que mudou é que, em uma parte crescente das pesquisas, a resposta aparece na própria página do Google, antes de qualquer visita a um site. Este artigo reúne o que os estudos mais recentes mostram sobre isso, onde eles divergem e o que muda na forma de produzir e medir conteúdo.

Nos artigos anteriores desta série, o ponto central foi a diferença entre capturar demanda (Google Ads) e criar demanda (Meta Ads). O conteúdo orgânico segue a mesma lógica: um post de blog captura uma intenção que já existe. A diferença é que, agora, o blog não é o único candidato a responder. Antes de entrar nos números, um aviso de método:Trato os dados como direção, não como regra, e deixo isso explícito ao longo do texto.


A intenção não mudou. Quem responde, sim.

Quem pesquisa "como calcular ROAS" tem a mesma intenção de cinco anos atrás: quer aprender a calcular. O que mudou é que um resumo gerado por IA pode entregar essa resposta sem que a pessoa abra uma única página. No Google, isso acontece nas AI Overviews, o resumo no topo da página de resultados, e no AI Mode, a versão conversacional em que o usuário pergunta e recebe uma resposta com links de apoio. Fora do Google, ferramentas como ChatGPT e Perplexity fazem o mesmo trabalho sem que o usuário chegue ao buscador.

Na prática, a intenção informacional foi parcialmente absorvida pela interface. Um conteúdo escrito apenas para responder uma pergunta simples passou a competir com um resumo que não custa nenhum clique ao usuário. Daí vem o termo AEO (Answer Engine Optimization), também chamado de GEO (Generative Engine Optimization): a disciplina de produzir conteúdo para ser a fonte que a resposta usa, e não apenas um link entre dez.


O que os dados mostram: três estudos, uma direção

Ahrefs: o primeiro resultado perde mais da metade dos cliques

A Ahrefs analisou 300 mil palavras-chave com dados agregados do Google Search Console, comparando dezembro de 2023 (antes das AI Overviews) com dezembro de 2025. O resultado publicado em maio de 2026: quando há uma AI Overview, o CTR médio da página em primeiro lugar é 58% menor. Em uma versão anterior do mesmo estudo, publicada em 2025, a queda medida era de 34,5%. A perda também não se limita ao topo: segundo o comunicado da Ahrefs, a segunda posição perdeu cerca de metade dos cliques e até a décima posição teve queda próxima de 20%.

Pew Research: o comportamento real de quem pesquisa

O Pew Research Center acompanhou a navegação de 900 adultos em março de 2025, o que somou quase 69 mil buscas no Google. Nas visitas em que apareceu um resumo de IA, o usuário clicou em um resultado tradicional em 8% das vezes, contra 15% quando não havia resumo. Clicar em um link dentro do próprio resumo foi ainda mais raro: 1% das visitas. E a sessão de navegação terminou logo após a página de resultados em 26% dos casos com resumo, contra 16% sem ele. É um estudo mais antigo que os outros, mas é o único aqui baseado em comportamento observado de pessoas, e não em dados agregados de sites.

Seer Interactive: o recorte que separa citado de não citado

O estudo mais detalhado é o da Seer, publicado em abril de 2026. A base cobre 53 marcas, 5,47 milhões de consultas e 2,43 bilhões de impressões orgânicas, de janeiro de 2025 a fevereiro de 2026. Três achados importam para quem produz conteúdo:

  • A exposição depende da intenção. Nessa base, AI Overviews apareceram em 36% das consultas informacionais, 8% das comerciais e 5% das transacionais.
  • Ser citado muda o resultado. Em consultas informacionais, para cada milhão de impressões, a Seer estimou cerca de 33,5 mil cliques orgânicos quando não há AI Overview, cerca de 20,7 mil quando há e a marca é citada, e cerca de 9,4 mil quando há e a marca não é citada. Ser citado rendeu 120% mais cliques por impressão do que não ser, mas ainda ficou 38% abaixo do cenário sem AI Overview.
  • A queda parou de acelerar no início de 2026. O CTR orgânico nas consultas com AI Overview chegou a um piso de 1,3% em dezembro de 2025 e subiu para 2,4% em fevereiro de 2026. A própria Seer avisa que não dá para projetar recuperação com dois meses de dados e que não espera voltar ao patamar anterior.

Um detalhe que vale registrar: o dado mais recente da Ahrefs é de dezembro de 2025, exatamente o mês que a Seer aponta como piso. Os dois estudos não se contradizem, mas olham para momentos diferentes do mesmo movimento.


O contraponto: o que o Google diz e por que os números divergem

O Google afirma publicamente que as AI Overviews e o AI Mode aumentam o uso da busca, que as pessoas ficam mais satisfeitas e que passam a visitar uma variedade maior de sites em perguntas complexas. A Ahrefs registra ainda que o Google sustenta que links dentro das AI Overviews recebem mais cliques do que teriam fora delas. Os estudos de terceiros apontam o caminho oposto quando olham o clique médio.

As duas leituras podem coexistir, e a razão está no que cada uma mede. A Ahrefs compara o CTR do primeiro resultado antes e depois das AI Overviews. A Seer compara marcas citadas e não citadas dentro da mesma página de resultados. O Pew observa o comportamento de usuários. Nenhum deles prova causalidade: a Seer, por exemplo, ressalva que marcas de maior autoridade também têm mais chance de serem citadas. O que os três sustentam em conjunto é mais modesto e mais útil: quando há resumo, o clique médio cai; dentro dessa página, ser fonte vale bem mais do que não ser.

Outro ponto da Seer merece atenção. O CTR das marcas citadas caiu 61% entre o terceiro e o quarto trimestre de 2025, mas os cliques ficaram praticamente estáveis, enquanto as impressões mais que dobraram. Ou seja, as marcas apareceram em mais consultas sem receber mais cliques. Olhar só o CTR levaria à conclusão errada. Por isso, cliques e impressões precisam ser lidos separadamente.


Nem toda intenção está exposta da mesma forma

Separar por tipo de intenção evita tanto o pânico quanto a negação. Com base na Seer:

  • Informacional ("o que é", "como fazer"): a mais exposta. Entre as consultas informacionais rastreadas, as de comparação ("X vs Y") tiveram AI Overview em 95,4% dos casos, e as no formato de pergunta em 85,9%.
  • Comercial ("melhores ferramentas", avaliações): exposição menor no geral, mas a Seer observou queda de CTR nesse grupo mesmo sem AI Overview, e afirma não saber ainda o que está comprimindo esses cliques. Não trate como território seguro.
  • Transacional ("comprar", "preço", "contratar"): a menor exposição da base, em torno de 5%. Ainda assim, quando a AI Overview aparece e a marca não é citada, o CTR orgânico caiu de 4,17% para 2,15% ao longo de 2025.
  • Anúncios de busca: o CTR pago em consultas com AI Overview ficou entre cerca de 13% e 16% ao longo do período, o comportamento mais estável do estudo. Isso reforça um ponto da série: o Google Ads capturando demanda continua sendo o canal mais previsível dentro da busca.

Um dado curioso: mesmo consultas informacionais com "perto de mim" tiveram AI Overview em 76,9% dos casos na base da Seer, e consultas de uma palavra só em 27,3%. A ideia de que buscas curtas ou locais estão protegidas não se sustentou nessa amostra.


A intenção que sobra: o que acontece onde não há resumo

Há um resultado que quase ninguém comenta. Nas consultas sem AI Overview, o CTR orgânico da base da Seer subiu de 2,8% em janeiro de 2025 para 3,8% em fevereiro de 2026. Nas consultas informacionais sem resumo, a alta foi de 2,93% para 3,97% ao longo de 2025.

A hipótese da própria Seer é um efeito de seleção: à medida que a IA absorve as perguntas simples, o que sobra sem resumo tende a ser o que exige mais do que uma resposta curta, e quem pesquisa isso está mais disposto a clicar. É uma hipótese, não um fato comprovado, mas ela muda a pergunta de planejamento. Em vez de só se defender das consultas com resumo, vale identificar onde o Google ainda não resume e onde uma perspectiva própria tem espaço.


Dois objetivos para o mesmo conteúdo: ser clicado ou ser citado

Com isso, cada peça de conteúdo passa a ter um objetivo principal, definido antes de ser escrita.

Para intenções de decisão e compra, o objetivo continua sendo o clique e a conversão. Para intenções de aprendizado, o objetivo realista passa a ser ser a fonte que a resposta cita, e usar essa presença para construir reconhecimento. Os números da Seer justificam a prioridade: ser citado renderia mais que o dobro de cliques por impressão em relação a não ser, na mesma página de resultados. E há um benefício que não aparece no relatório de cliques. Quem é citado ganha exposição de marca, e essa exposição tende a virar busca de marca, a intenção mais protegida e mais valiosa da série.

Um detalhe que desmonta uma suposição comum: ranquear bem não garante ser citado. O que se sabe com segurança é que o Google diz que as AI Overviews e o AI Mode usam o mesmo índice e os mesmos sistemas de qualidade da busca tradicional, e que podem fazer várias buscas relacionadas a partir de uma única pergunta, a chamada expansão da consulta (query fan-out). Isso significa que uma página pode ser escolhida por responder bem a um subtema, mesmo sem liderar a palavra-chave principal.


O que o Google recomenda e o que ainda é hipótese

A posição oficial do Google, na documentação para donos de site e no guia sobre recursos de IA publicado em 2026, é que não existem requisitos adicionais nem otimizações especiais para aparecer nas AI Overviews e no AI Mode. Os fundamentos do SEO continuam valendo: conteúdo original, útil e feito para o visitante. É uma posição deliberadamente genérica, e o que faz uma página ser escolhida como fonte ainda não é público.

Por isso, separo o que é base do que é hipótese de trabalho. A base: conteúdo indexável, tecnicamente limpo, com autoria clara e informação que agrega algo. As hipóteses, que uso como ponto de partida e não como regra:

  • Responda na primeira frase, aprofunde depois. Se a resposta está enterrada no quinto parágrafo, tanto o leitor quanto o sistema que resume têm mais trabalho para encontrá-la.
  • Escreva o que um resumo não consegue produzir. Experiência própria, dados de contas reais, decisões tomadas com o raciocínio à mostra. Uma definição genérica é intercambiável. Um caso analisado não é.
  • Coloque dados e comparações em texto. Informação que existe só em imagem ou infográfico é mais difícil de ser lida e reaproveitada.
  • Use subtítulos no formato das perguntas reais. Isso organiza o texto para quem lê e facilita a extração de respostas específicas.
  • Mantenha autoria e assunto consistentes. Um mesmo nome escrevendo com profundidade sobre um mesmo campo é um sinal mais claro do que dezenas de temas soltos.
  • Atualize o que envelhece. Benchmarks de 2023 em um artigo de 2026 fragilizam a fonte.
  • Corte o conteúdo genérico. Se o post só repete o que qualquer resumo diria, ele perdeu antes de ser publicado.

Categorias sem dono: onde a disputa ainda está aberta

Um estudo de Kevin Indig, do Growth Memo, acompanhou 1.094 categorias em cinco prompts no ChatGPT entre janeiro e junho de 2026, com mais de 50 mil marcas e 600 mil citações. Só 15,2% das categorias tinham um "dono" claro, ou seja, uma marca liderando de forma consistente. Outras 53,7% não tinham nenhum líder estabelecido, e 89,3% do volume de buscas por IA estava em categorias sem dono definido. A leitura da Seer sobre esses dados é que, se a categoria ainda está aberta, vale disputar visibilidade, e que, se já existe um dono, a prioridade passa a ser a precisão do que a IA diz sobre você.

Duas ressalvas. O estudo cobre o ChatGPT, não o Google, e não mede sentimento nem impacto em compra. E a Seer vende serviços de GEO, o que não invalida a análise, mas é um conflito de interesse que o leitor deve conhecer. Para quem produz conteúdo em um nicho específico, a implicação prática é modesta e razoável: um campo estreito, tratado com consistência e profundidade, tem mais chance de virar referência do que um campo amplo tratado de forma superficial.


Como medir quando o clique não conta a história toda

Se parte do valor do conteúdo passa a acontecer fora do clique, olhar só sessões orgânicas dá uma leitura incompleta. Cinco verificações práticas:

  • Search Console, com impressões e cliques separados. Impressões subindo com cliques estáveis ou em queda não significa necessariamente que o conteúdo piorou. Segmente as consultas em formato de pergunta e compare com as demais. Até onde sei, o relatório não isola cliques vindos de AI Overviews, então confira na sua conta se isso mudou.
  • Buscas de marca ao longo do tempo. A evolução das consultas com o nome da marca ou do autor é um indicador indireto de reconhecimento.
  • Origens de referência no GA4. Verifique se há visitas vindas de ChatGPT, Perplexity ou Gemini e o que essas pessoas fazem depois de chegar. Volume sem engajamento é sinal de alerta, não de vitória.
  • Checagem manual por pergunta. Escolha de 15 a 20 perguntas centrais do seu tema, pesquise uma vez por mês no Google e em uma ou duas ferramentas de IA, e registre em uma planilha se você aparece, se é citado com link e se a descrição está correta.
  • Uma referência do que é "correto". A Seer propõe medir três coisas: ser visto (frequência de menção), ser acreditado (precisão do que a IA diz) e ser escolhido (conversão de quem chegou influenciado por IA). O alerta central é que visibilidade pode subir enquanto a participação relativa cai, e que mais menções não significam mais recomendações. Para um blog pessoal, a versão simples disso é ter escrito, em um parágrafo, o que você quer que digam sobre o seu trabalho e comparar com o que aparece.

Exemplo prático: reescrevendo o ângulo de um post

Um exemplo ilustrativo, sem dados reais. Considere dois posts possíveis sobre o mesmo tema.

  • Post A: "O que é ROAS e como calcular". Intenção informacional simples, no formato de pergunta. É o tipo de consulta com maior chance de receber um resumo, e o post não tem nada que o resumo não tenha.
  • Post B: "Por que o ROAS do Meta e o do Google não fecham com as vendas reais". Intenção informacional com análise: parte de um problema real, traz o raciocínio de atribuição e uma forma de medir por fora das plataformas. Um resumo pode citar o conceito, mas dificilmente substitui o caso.

O Post A não precisa deixar de existir, mas deveria ser curto, objetivo e servir de porta de entrada para o B. O Post B é o que constrói autoridade. Essa é a forma concreta de trocar volume de conteúdo genérico por profundidade.


Conclusão: a intenção continua mandando, o objetivo é que se divide

A estratégia de conteúdo orgânico não ficou obsoleta. Ficou mais exigente. A intenção de busca segue sendo a bússola, mas agora cada peça precisa responder a duas perguntas: que intenção ela atende, e o que se espera dela, clique ou citação?

Quem continua produzindo conteúdo genérico para consultas informacionais compete com um resumo automático. Quem produz análise própria, com raciocínio visível, tem algo que o resumo depende de alguém ter escrito. Os dados ainda são imperfeitos, mas apontam a mesma direção: menos clique médio, mais valor em ser a fonte, e mais necessidade de medir por dentro e por fora da plataforma.

O próximo artigo aplica isso ao que você já tem publicado: como auditar os posts existentes, descobrir quais atendem à intenção de busca e decidir quais reescrever, quais manter e quais cortar.


Até o próximo.

Carlos Felipe Hecht
Analista de Marketing Digital · hecht.com.br


Referências

  1. Seer Interactive. AIO Impact on Google CTR: 2026 Update. 24 abr. 2026. seerinteractive.com
  2. Ahrefs. Update: AI Overviews Reduce Clicks by 58%. 2026. ahrefs.com. Comunicado de 19 mai. 2026: Business Wire
  3. Ahrefs. AI Overviews Reduce Clicks by 34.5%. 2025. ahrefs.com
  4. Pew Research Center. Google users are less likely to click on links when an AI summary appears in the results. 22 jul. 2025. pewresearch.org
  5. Google Search Central. AI features and your website. developers.google.com
  6. Google Search Central. Optimizing your website for generative AI features on Google Search. 2026. developers.google.com
  7. Seer Interactive (Sonny Vasquez). AI Visibility Is Lying to You: There's No One-Size-Fits-All AI Search KPI. 31 ago. 2026. seerinteractive.com
  8. Kevin Indig, Growth Memo. Estudo sobre autoridade temática e categorias em buscas por IA, jan.–jun. 2026. growth-memo.com
  9. Search Engine Land. Google AI Overviews CTR shows early signs of recovery: Study. 24 abr. 2026. searchengineland.com

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